Espirro

Despertava sobre o leito negligente
sob as manhãs severas de fevereiro.
Sondo com sanha meu inferno corriqueiro:
livros e versos mortos. Suspiro silente.

O meu relógio palpita horas à toa,
pois que o ócio ébrio mas ludibriava
(nas garatujas poéticas não findava
— inda hoje minha mente em tais ecoa).

Não sabia, todavia depois entenderia:
poesia nasce com água e ar, do chão,
e não pelo porte e afã do punho;

não a deglutia, sem cuspe fazia poesia
e com sangue escrevia do ar de meu pulmão
— papéis e cabelos eram-me rascunho.
2016.