"Words like the locust-shells"
— Ezra Pound.
Feito sou de palavras
e de sua ausência.
Lamento meu canto e minha voz:
a palavra lançada não perdura ao acidente,
tampouco o faz à certeza do pó.
Palavras são constituídas de olhos,
apenas;
do motim de vislumbres compõe-se
poemas.
Engulo minha aurora
tal um bicho triste
engole suas fezes;
engulo minha aurora
e vomito maus-sóis
pensando iluminar;
engulo minha aurora
entretanto trevo no peito
— contento-me com trovões
que me refulgem e as esqueço.
Mas palavra lançada é palavra voando.
Mas verso é um cão errante
que lambe. E morde.
(A) Quem — ou quê — te inclina, canções?
Aquém te inclina.
Canções, canções...
que sons emanam, peito?
com qual ar ponderam-se
harmonizando corpos?
Indago:
questão que precede dúvida.
E se a incerteza da consistência do som
confronta a certeza plena do pó,
nada garante a convicção da palavra lançada,
nada retém a força da palavra lançada.
Sem a ordem do som,
sem o timbre do canto,
sem o palpite da voz, canções,
o que de vós restais:
a vibração do ar
ou a necessidade do grito?
No silêncio, canções,
ainda cantais?
2016.