Uma mão morna pousou na grama miúda: outra nuvem engoliu a colina inteira. Consequentemente, sabido do fato, o coração órfão das quimeras surdas, trincando os dentes de frio, sussurrou “soprarei as mãos e os dedos seguirão os ventos, tal como as pétalas dum dente-de-leão seguem os vergéis adjacentes”.
Do outro lado dos montes, nas tavernas do submundo, um jovem sonhador algum dia gorjeou uma profecia:
— Sou o nada! O ar, assim como eu, é invisível e faz a todos respirar; assim como eu, é onipresente e prorroga a vida. Deste modo, assim como eu, é o nada guarnecendo o tudo.
Com efeito, um camarada o interrompeu:
— Mandaram avisar - lá de cima, do trono do breu - que quem da chama das velas se aproximar, perecerá no fogaréu do pecado.
Pelos canais da escuridão, periodicamente perambulavam vigias a mando do trono de evitar o contraste claro-escuro. De fato: ao roçar dos fósforos, já se arrebatava a pólvora e a ciência, sucumbindo novamente as ruelas à bruma negra.
Quando com alma desgastada, os habitantes berravam reclames uníssonos ao regime, em monossílabos —“mor-! nun-! jam-!”. Gagos, cegos e isentos d’esperança, orientavam-se por meio do frufru emitido das batas do clero, dos uniformes militares e do tilintar das botinas pelos pátios.
O ulular das lágrimas longínquas proliferavam-se em todas as noites de gesticulações autoritárias pútridas, pulsando pesares juvenis. “É o fim, minha mãe. É o fim! O eclipse é total, a úlcera é eterna!”.
Um eco de ignotas origens repeliu os sons. Ressonou o temor no júbilo onde quer que se encontrasse: nos bares, na velocidade, no afeto. Gritava “morrerás! morrerás!”. Um grupo de boêmios ouviram estas advertências, tornaram-se bons cidadãos dos baços e morreram por medo de viver. “Ensurdecer para assim enxergar. Obedecer a eternidade, poder pacificar-se no todo, e sempre!”.
Passadas longas temporadas de inverno, os dedos soprados e carregados pelos ventos fincaram nos prados mais verdejantes, onde algum dia fora as trevas, causando uma luz estonteantemente fúlgida.
De súbito, um grande renascer! Homens, mulheres e crianças dançavam de frontes erguidas, banhados de esplendor das lucernas colossais, vislumbrando e troçando de suas sombras!
Boêmios reviveram, enfant-terribles, anciãos e filósofos despertaram-se e, por fim, os pulmões respiraram o ar quente.
Em resposta, monarcas, clérigos e demagogos bateram seus cajados entre si, fazendo cintilar uma centelha a qual envolvia efetivamente os foliões, por ser deveras mais ofuscante que todos os reflexos. Guerreiros-vagalume foram invocados a fim de conter o candeeiro mórbido que permitia a visão.
Marcha sobre terra negra!, as faíscas oscilavam nas curvas dos bulevares, manobrando aquela gente às colinas.
Expedições já turvas!, aos milhares iam escalando os rochedos dos montes, esbarrando-se entre os farelos.
“Este fogo louco, este calor bizarro: basta!, nos é fatal! Acabe logo com este aborrecer. Entorpece nossas veias de sono!”.
A sete passos do abismo, lá estava o vagabundinho moribundo, geratriz de todo o fulgor, crispado em sua inércia escarlate, entre as tardes cálidas azuis de verão e a erva rasteira do sonhar.
Milésimos de cogitar: seus tridentes e labaredas franzinas vacilaram em “logo”.
“Teus olhos exasperam-nos o vislumbre, visto que estes espinhos peçonham-nos a córnea”.
Não mais: o avanço general esmaeceu-o. Foi-se lodo, poço, lama: enegreceu-se com o passar dos séculos. Infiltrou-se nos lençóis freáticos mais obscuros dos canais, onde alguma língua de chama, sequer, jamais penetrou.
Nos confins: estático; à espera.
“Bah! Teus homens bons, tuas glórias perfeitas!”.