Boulevards

Pessoas nas ruas entre árvores,
Folhas ao ocaso sem destino.

Apartamento

Ante a tarde limpa
a camisa branca
na verga clara:
limpas brancas claras
vestem o ar.

Sobre a mesa limpa
de toalha branca
a água clara
limpas brancas claras
vestem o ar.

A janela limpa,
sob, a cama branca
de colcha clara
limpas brancas claras
vestem o ar.

Quarteto de Cordas

Violino, amigo extinto, rápido desatino que
cisca o ar;
Violino, lírio fino, afago felino que
acalma o ar;
Viola, viola a forma, da flora discreta que
retarda o ar;
Cello, céu já limpo, nasce do limbo que
enxuga o ar.
Canta nos pântanos
                               murmuro
                                      muro dos sapo-pós.
Cri-criação de vida
ao meio-ida
naqueles montes longes;
e lá se vai, pois, o canto dos pássaros no horizonte,
                                                             no horizonte.
Neste arroio cinzazul me vou
— tal mergulho de pei-
                                  xe.
Suspiro-piro.

Marcha

Rompa as trompas das tropas teatrais,
abra alas: entrudos, carnavais;
trompas, trompetes, pratos demais
jamais são, pois findos são os ais.

Bumbo, bumba esta minha paixão,
cuida-a de plurais, seja a canção
dora dura, duradoura, senão:
dolor verdade à doce ilusão.

Sinos silentes ou graves sinais,
batam-se sem dó baques mortais,
qu'a vida no amor non se vai,
jamais se vai, pois findos são os ais.

Dar-se

Cidade, cidade...
pulmão-concreto;
vida humana
em estado de
pedra e vidro;

forma fecunda
fixada por cimento
sobre sonhos
simultâneos,
sempre mutáveis.

Cidade, cidade...
vejo-a crescer
como um irmão
em sua gengiva
e esqueleto.

Cidade, cidade...
pequeno moinho
de grandes aragens;
hálito donde tudo
parte, cidade.

Vivacidade...
memória cravada
em paisagens:
ruas personificadas,
rio sem margem.

Simultaneidade!
teimoso enfarte
em atividade.
Cidade, cidade:
moldura das tardes.
2016.

Sombra e Gás

"Words like the locust-shells"
— Ezra Pound.

Feito sou de palavras
e de sua ausência.

Lamento meu canto e minha voz:
a palavra lançada não perdura ao acidente,
tampouco o faz à certeza do pó.
Palavras são constituídas de olhos,
apenas;
do motim de vislumbres compõe-se
poemas.

Engulo minha aurora
tal um bicho triste
engole suas fezes;
engulo minha aurora
e vomito maus-sóis
pensando iluminar;
engulo minha aurora
entretanto trevo no peito
— contento-me com trovões
que me refulgem e as esqueço.

Mas palavra lançada é palavra voando.
Mas verso é um cão errante
que lambe. E morde.
(A) Quem — ou quê — te inclina, canções?
Aquém te inclina.

Canções, canções...
que sons emanam, peito?
com qual ar ponderam-se
harmonizando corpos?

Indago:
questão que precede dúvida.
E se a incerteza da consistência do som
confronta a certeza plena do pó,
nada garante a convicção da palavra lançada,
nada retém a força da palavra lançada.

Sem a ordem do som,
sem o timbre do canto,
sem o palpite da voz, canções,
o que de vós restais:
a vibração do ar
ou a necessidade do grito?
No silêncio, canções,
                                 ainda cantais?
2016.

Espirro

Despertava sobre o leito negligente
sob as manhãs severas de fevereiro.
Sondo com sanha meu inferno corriqueiro:
livros e versos mortos. Suspiro silente.

O meu relógio palpita horas à toa,
pois que o ócio ébrio mas ludibriava
(nas garatujas poéticas não findava
— inda hoje minha mente em tais ecoa).

Não sabia, todavia depois entenderia:
poesia nasce com água e ar, do chão,
e não pelo porte e afã do punho;

não a deglutia, sem cuspe fazia poesia
e com sangue escrevia do ar de meu pulmão
— papéis e cabelos eram-me rascunho.
2016.

A pluma e a borboleta

A pluma e a borboleta perpassam a brisa;
esta resiste contra o chão
e aquela queda-se, somente.
“Não pastoro o sentido dos ventos,
o ar me basta.”
Borboleta voa um dia.

Eco

Calado, eu morro no fundo das ideias,
ofego no cativeiro do pensamento,
jogo siso sorrindo com o sofrimento
ao pé de um muro do pensar sem janelas;

falando, afio uma guilhotina à língua,
faço um nó-de-marinheiro na garganta,
amarro-o no pulso da dúvida que anda
através das palavras não ditas ainda.

Mas grito no silêncio: cavo minha cova,
visto meu túmulo e escrevo minha lápide
onde descrevo o vazio d’um sol sem tardes

o qual emana uma nesga de luz torta
por medo de escurecer mais outro breu
com o falho e mal-fúlgido fulgor seu.